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Por que é contra Luxemburgo?


Por que rompeu com Pelé? Teria coragem de criticar o amigo Sócrates? É a favor da Copa no Brasil? Dunga tem liberdade para convocar? Qual o problema dos Estaduais? Suas dúvidas respondidas por...Juca kfouri


Entrevista Sergio Quintanilha

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"Perguntei ao Pelé: você quer que eu escreva o que no livro? Que o Pelé traiu o Pelé?"

Quem pensa que Juca Kfouri é acima de tudo corintiano, não o conhece direito. O mais polêmico jornalista esportivo do Brasil é, em primeiríssimo lugar, Juca Kfouri Futebol Clube. Longe de significar narcisismo ou vaidade, isso é a representação de um homem que prefere perder amigos, mas não arreda um milímetro de sua ética. Capaz de romper com o rei Pelé e com o presidente Lula. De todos os amigos que fez no futebol, só lhe restou um: Sócrates - e mesmo esse sentiu o peso de sua pena forte ao ser chamado de irresponsável e negligente no SBT, quando perdeu um pênalti contra a França, na Copa do Mundo de 1986. "Escravo" de um blog que atingiu a espantosa marca de 60 milhões de page views, Juca recebeu a FourFourTwo em seu escritório, pertinho do estádio do Pacaembu, em São Paulo, para esta entrevista exclusiva. Seu ambiente de trabalho tem uma TV LG de 42", sete controles remotos, um computador Samsung, dezenas de livros de futebol, uma coleção da revista Placar, três bolas de futebol, uma camisa do Atlético Mineiro, um quadro com o site da Fifa declarando o Corinthians campeão mundial de clubes de 2000 e, claro, uma camisa do Timão autografada pelos campeões. Apesar de não acreditar em Deus, tem atrás de sua mesa uma espécie de "altar corintiano", com três mascotes, chaveiros e uma capelinha com o distintivo do clube, e se referiu a Deus durante a conversa. Juca deu essa entrevista um dia antes de publicar um polêmico artigo na Folha de S. Paulo, criticando os jogadores da Seleção Brasileira pelo proselitismo religioso.

É verdade que você não crê em Deus por causa do Corinthians? Ih! Escrevi uma coluna na Folha cujo título é "Deixem Jesus em paz" [risos]. Não sou agnóstico ou ateu por causa do Corinthians, mas aos 15 anos, quando mais uma vez pedi na comunhão que o Corinthians ganhasse do Santos para quebrar o tabu, e o Corinthians não ganhou, eu avisei minha mãe que não iria mais à missa e resolvi que não acreditava mais em Deus. Larguei mão, tá?

Eu não pedia para ser campeão, pedia para ganhar um jogo! Usei isso como desculpa para deixar de ir à missa. Depois, na faculdade, cheguei à conclusão de que Deus não existe, que não tem vida depois da morte. [rindo] O Corinthians foi o pontapé inicial para isso.

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O Google registra 69 300 citações de sua briga com Milton Neves...
Não briguei com ele! Eu me limitei a dar uma nota dizendo que este cidadão não é da minha turma no dia em que soube que ele processava o José Trajano, na época que soube que ele tinha dado um pontapé no Sílvio Luís porque se recusou a tirar o chapéu para ele naquele programa ridículo. Como ele vivia me elogiando, me chamando de amigo, achei que devia fazer uma declaração à praça. A rejeição o transformou num doidivanas. Não dou a menor pelota, tenho um profundo desprezo.

Por que o livro que você faria sobre a vida de Pelé não deu certo?
Porque o Pelé fez o acordo da bola com Ricardo Teixeira e João Havelange. Eu perguntei para ele: "Como é que você quer que eu escreva esse capítulo? Dizendo que o Pelé traiu o Pelé?" Ele disse: "Não é possível que por causa de uma divergência você não possa fazer o nosso livro". Eu disse: "É possível, sim, porque até então eu ia fazer uma biografia autorizada na qual tinha motivos para falar do rei do futebol. A partir de agora estou conhecendo uma faceta que me leva a escrever coisas das quais eu não gosto".

Você é amigo de Sócrates e inimigo de Vanderlei Luxemburgo. Jornalista pode ter amigos ou inimigos pessoais?
Não deve. Em certo aspecto, o jornalismo é a profissão mais solitária do mundo. Entre o amigo e a notícia, publique-se a notícia. Algumas pessoas me decepcionaram, eu publiquei o que me decepcionou, e delas me afastei. Com o Magro [Sócrates] isso de fato não aconteceu, embora ele tenha tido motivo de mágoa comigo.

Quando ele perdeu o pênalti contra a França, eu era comentarista do SBT e disse que ele tinha batido o pênalti com "irresponsável displicência". Ele ficou muito magoado e depois me deu uma aula para mostrar que eu estava errado, porque nem sequer percebi que, pela primeira vez na vida, ele era o primeiro a bater uma série de pênaltis, e não o último. E que isso o desnorteou: "Me conhecendo tão bem, esse era o saque que só você poderia ter tido, e você não teve". Fiquei pensando até que ponto isso fazia sentido. Ele disse que bateu cansado e que vinha batendo pênalti daquele jeito [parado à frente da bola, sem correr] no Corinthians. O fato deu eu gostar dele e ser seu amigo não me impediu de ter feito essa crítica. E o contato que tive com o Pelé não me fez deixar de vê-lo como de fato ele é, e abdicar de minha independência financeira, que seria fazer sua biografia. Quanto ao Vanderlei, não tenho inimizade pessoal. É uma pessoa de quem eu não compraria um carro usado, um cara que eu não quero ter como técnico do meu time e não quero que venha à minha casa. É uma pessoa pela qual eu não tenho admiração, pela história dele, pelas coisas que ele fez.

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No alto Juca não tiraria o chapéu para Milton Neves
Acima Diga-me com quem andas e te direi quem és
Abaixo Novo em folha, o Engenhão está fora da Copa

Como pessoa ou como técnico? Como pessoa! Aliás, eu cada vez separo menos. Esse foi um dos grandes males do jornalismo brasileiro: a gente contrata o talento, não o caráter. Discordo. Talento você desenvolve. Caráter, se é fraturado... olha, você conserta braço, conserta perna, mas não conserta caráter. O Saldanha dizia "eu quero ele para jogar no meu time, não para casar com a minha filha", mas isso acaba justificando dizer que o José Sarney é uma pessoa especial, como disse o Lula, que com alguns temos que ser tolerantes.

Não, para mim não! Sem negar a competência já revelada pelo Vanderlei Luxemburgo como treinador, se eu tivesse um time, ele não seria meu treinador.

Quais são os três melhores técnicos em atividade no Brasil?
Muricy... Mano Menezes... [pausa enorme, antes de balbuciar] o PC Carpeggiani está fazendo um trabalho brilhante no Vitória, como fez na seleção do Paraguai.

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"A Abril queria me vender a Placar. O Pelé ia entrar! Foi ótimo não ter comprado..."

Dunga tem liberdade para convocar?
O Felipão teve, o Dunga não. Ele sofre pressão dos dirigentes que votam para eleger o presidente da CBF que fazem um pedido aqui, outro ali. "Olha, fulano está precisando vender um jogador, eventualmente uma convocação agora para um amistoso resolve o problema." Ouço isso de gente que vive no mundo do futebol, de gente que já rebateu esse tipo de pressão e até de gente que diz que cedeu por achar que não arrancava nenhum dedo.

Qual a diferença entre Giulite Coutinho, que você elogiava, e Ricardo Teixeira, que você sempre critica? [animado] Giulite Coutinho era um empresário muito bem sucedido quando chegou à CBF, continuou a ser um empresário muito bem-sucedido nos seus negócios e abdicou de taxas de clubes que antes iam para a CBF. Ricardo Teixeira era alguém em má situação que caiu de para-quedas no futebol, por ser genro de João Havelange, e tornou-se um homem sabidamente de muitas posses. Eu diria que ele é um vencedor se as médias de público do Campeonato Brasileiro fossem semelhantes às médias de público dos campeonatos europeus. Mas para isso ele não dá a menor pelota. E o que houve de progresso no Campeonato Brasileiro foi fruto de uma legislação que exige um campeonato de pontos corridos, ao qual ele resistiu o quanto pôde.

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Por que você abandonou o jornalismo em revista?
Não fui eu que abandonei o jornalismo em revista, foi o jornalismo em revista que me abandonou [risos]. Um belo dia, o Roberto Civita [dono da revista Placar] me pediu para deixar de criticar a CBF porque o Ricardo Teixeira reclamava com ele que não podia vender direitos para a TVA porque ela fazia parte de uma empresa que tinha uma revista que vivia pegando no pé dele. E o Roberto pediu: "Não precisa falar bem, mas para de falar mal". Eu disse ao Roberto: "Não acredito! O senhor se orgulha de ter ajudado a derrubar o Collor, numa hora em que a Editora Abril estava numa situação economicamente frágil. O Ricardo Teixeira é o meu Collor!" Ele riu, achou graça. O Thomas Souto Correia [vice-presidente da Abril na época] e o filho dele, Giancarlo Civita, ouviram essa conversa. No mês seguinte, Placar saiu batendo. Daí o Thomas me chamou e disse: "Olha, resolvemos que você não fica mais na direção de Placar.

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